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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Wordsong - 5 Fotografias (2002)

Estive a ler o último post que escrevi sobre os Wordsong. Não o devia ter feito, agora não sei o que diga, sem estar a repetir-me.

Continuo a gostar mais de Al Berto que de Pessoa, não me perguntem porquê, que eu não saberei dizer com precisão. Talvez seja por me soar mais experimental, talvez seja por causa do poeta, não sei.

Continuo a achar Pedro D'Orey um dos mais carismáticos vocalistas portugueses. Ninguém faz aquilo que ele consegue fazer com as palavras. Ninguém. Muito para além de cantar, muito para além do mero spoken word.

Continuo a ver naquela banda um envolvimento e uma criatividade sem par que não se esgota na simples adaptação de poemas. Eles são aqueles poemas. É quase como se as teclas fizessem um verso, o baixo outro, a guitarra outro, a bateria outro, a voz outro, as imagens outro ainda. E dessa conjugação nascesse o poema, e não da queda da laranja.

Os Wordsong continuam a ser um dos projectos mais estimulantes da música nacional.

5 Fotografias, para os Wordsong.

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"Apesar de Alexandre ter um olho de cada cor, a fotografia tinha o rigor das imagens a preto e branco."

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Rui Maia - Go (2008)

Ando às voltas com isto e não consigo largar.

A aventura a solo do homem por detrás das teclas e de toda a maquinaria dos X-Wife é simplesmente viciante. Dá vontade de rumar até ao Porto, ao Armazém do Chá, para ouvir um set deste passador de discos.

Acabadinho de chegar, pela mão da britânica Untracked Records, o EP Cantonese Man mostra um produtor de mão cheia, um punhado de originais e a versão para Cantonese Man, de Hot Coin.

Confesso que só agora estou a entrar nestas areias movediças da electrónica. Sons sintéticos raras vezes me atraem... Mas no últimos tempos tenho encontrado algumas coisas deveras interessantes.

Uma delas, Rui Maia, daquelas pessoas que não imaginaria num projecto deste tipo, muito menos a passar música em sítios tão distintos como o Lux ou o Plano B. Maia recupera um certo estilo vintage, e quem o vê, discreto nas teclas e programações dos X-Wife, firme na sua estética retro, jamais despertaria estas atenções.

A discrição faz mesmo parte do trabalho de Rui Maia, na banda e a solo. Pouco se sabe sobre ele e o projecto Cantonese Man. Na sua página do MySpace, há ainda outro véu por levantar: Social Disco Club & Maia - The Way You Move 12".

Go, a minha proposta para hoje, tem um ritmo contagiante, faz qualquer um, no mínimo, ensaiar uma mini-dança com o pé direito ou com a cabeça. Confiram. É uma excelente versão, mais dançável, da canção de 1984 dos Tones On Tail, projecto paralelo de Daniel Ash dos Bauhaus.

Ah, e já não acredito quando Rui Maia diz que é um mero passador de discos.

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"Living it up. It's a big kick
It's good for you
Watch the big freeze slip
Crack the jackpot, get out of control
If you put yourself down
You'll never win, get out of that hole
Keep your mind open, your head up
You'll never ever get old"

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Peltzer - The Great Ladder (2008)

A edição deste sábado de KM0 foi mais uma agradável viagem pelo que de melhor se faz nas salas de ensaio improvisadas por esse país fora.
Dizia-me alguém na semana passada que em Portugal, em música, pouco se faz e o que se faz não tem grande qualidade. Como o meu amigo está enganado, apeteceu-me dizer-lhe.

A minha proposta para hoje vem directamente de Tomar, à boleia de JP Simões. Chama-se Peltzer, e é um projecto de um só homem. Se fosse rock seria com certeza uma one man band. Não sendo, é estranho utilizar o termo. Não posso evitar comparações com Moby, por se movimentar nas estradas da electrónica e por decidir fazê-lo sem companhia. Boas canções, uma voz interessante (talvez até mais do que a do próprio Moby, não querendo esgotar aqui as comparações...), e, sobretudo, uma impressionante consciência da fase que a indústria musical atravessa por estes dias.

Foi essa lucidez que mais me impressionou no discurso de Peltzer. E é por estas razões que programas como KM0 não deveriam desaparecer das grelhas das televisões. Para além de divulgar a música, dar espaço para que os músicos expressem as suas opiniões e preocupações sobre o mundo discográfico é vital. Temos todos muito que aprender com isso.

Tem-me também impressionado um certo factor de "interioridade", apenas passível de ser apreendido quando se viaja de terra em terra. Este conceito de "interioridade" aplicado à música entende-se nas palavras de Peltzer quando diz que houvesse mais sítios para tocar ao vivo, Tomar seria palco da nova cena electrónica portuguesa. E o pior é que Tomar não é o único sítio onde as coisas fervilham sem que se lhes consiga dar vazão.

Para hoje, Peltzer, The Great Ladder.

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Ando há dias para perguntar isto:
por que é que toda gente deu agora para ouvir música nos telemóveis, sem phones?

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Montecalvo146 - O Camponês Viu o Mar (2008)

A música de hoje é uma sugestão vinda directamente da edição deste sábado de KM0. Perto de Santa Maria da Feira, em Montecalvo, no número 146, JP Simões e equipa descobriram... os Montecalvo146.

Donos e senhores de uma interessante sonoridade experimental e electrónica, aliada a uma poesia do canto falado, os três músicos lançaram este ano o primeiro CD promocional, Chaves de Casa.

Nele, Cristiano Moreira, Lionel Fernandes e Ricardo Raimundo juntaram experiências em forma de faixas. Umas mais electrónicas, outras mais melódicas, umas mais bem conseguidas outras menos. Chaves de Casa, disponível para download no MySpace da banda, inclui até uma revisitação do clássico tema de Carlos Paião Cinderela, a que deram o nome de Cinderela Nulla Vita, na minha opinião o menos inspirado dos 4 temas de apresentação.

Canção tocada ao vivo para o KM0 e para mim o melhor tema de Chaves de Casa, O Camponês Viu o Mar é um grandioso cartão de visita para os Montecalvo146. Poesia em palavras e sons, samples muito bem escolhidos, o tema é um grande exercício de inspiração e vai-me fazer seguir de perto o percurso da banda de Santa Maria.

Ao ouvi-los não posso deixar de associar-lhes algumas sonoridades, muito embora não tenha ideia se sejam ou não efectivas influências. Ricardo Raimundo faz-me de alguma forma lembrar o estilo de Pedro D'Orey nos Wordsong e também, mas mais vagamente, o de uns Mão Morta mais calmos e electrónicos. Meras suposições.

Os factos são estes: Montecalvo146 é uma localização a reter.

Para hoje e para começar, O Camponês Viu o Mar, Montecalvo146. Obrigatório.

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"Ouve lá, já viste o mar?
Dizem-lhe o infinito,
Dizem que toca ao longe o céu
E que dele se torna
Indistinto.

Dizem que é de um azul imenso
E dizem também,
Para espanto meu,
Que não é dele a cor azul
Mas da vontade do céu."

terça-feira, 29 de abril de 2008

Micro Audio Waves - Fully Connected (2004)

a quem ontem esperava música por aqui, as minhas desculpas.
a administração de doses musicais recomeça hoje.
porque uma música por dia nem sabe o bem que lhe fazia.

Há um filão riquíssimo de experimentalismo electrónico na música dos Micro Audio Waves.

Este criativo trio começou pelas mãos de Flak (Rádio Macau) e de C. Morgado, a quem se juntou, após o lançamento do álbum de estreia, a voz de Cláudia Efe.

Apesar de ser o mais experimental e alternativo, não foi com o álbum homónimo de estreia que os Micro Audio Waves se impuseram na cena musical. Só Fully Connected, single de apresentação para No Waves (2004) levou definitivamente o colectivo às rádios nacionais e internacionais.

O grande hit dos Micro Audio Waves é pop electrónica bem feita, criativa. Mas a cereja no topo deste bolo musical é, sem dúvida, a escolha certeira da voz. Cláudia Efe tem uma voz nasalada como poucas, fazendo lembrar a impessoalidade intimista de um altifalante de aeroporto. Em Fully Connected, este estilo assenta que nem uma luva.

Cantar um livro de instruções de um qualquer aparelho electrónico de forma sexy é possível.

A comprová-lo, Fully Connected, os Micro Audio Waves.

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"Push down
gently
but firmly
until the body is fully connected

by touching a grounded metal surface
firmly
until the body is fully connected"

terça-feira, 8 de abril de 2008

Blasted Mechanism - Power On (2005)

Eles já andavam por aí há algum tempo, mas foi em 2003, com Namaste, que esse OVNI musical que são os Blasted Mechanism aterrou de uma vez por todas nas nossas vidas. Are You Ready?, perguntavam estes seres de estranha aparência a quem com eles se cruzava. Se estávamos preparados para aquela fusão de rock com electrónica, e dos dois com o funk e com o reggae e com África e com o Oriente. Nunca a expressão world music tinha sido tão bem aplicada num colectivo nacional.

Por debaixo daqueles fatos futuristas, dos sons quase extra-terrestres, os Blasted Mechanism mantêm fortes as raízes ao tradicional e à Terra. Inventam novos instrumentos, novas linguagens, novos conceitos de tribo e comunidade. Têm uma forte consciêcia ambiental, social e política, à sua maneira. Apregoam a união na música e na luz e a paz para todos os seres.

Do segundo álbum, Avatara, escolhi Power On: uma canção positiva que é um apelo à acção, à ousadia de ir para lá dos limites mais óbvios. Um bom exemplo de como futurismo e tradição podem estar juntos numa mesma música. A ajudar está Maria João que lhe empresta exotismo.

Agora com um novo vocalista, os Blasted Mechanism preparam o sucessor de Sound In Light (2007), cujo lançamento está previsto para 2009, pondo fim aos rumores que anunciavam o fim do projecto.

Aqui ainda com Karkov, Power On, os Blasted Mechanism. Para ouvir.

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"joined up taste of querosene, ecstasy, mescaline
get the picture, check the scene
we're ridding on your wildest dreams"

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Midnight Juggernauts - Into The Galaxy (2007)

Desenganem-se aqueles que achavam que Austrália estava longe da corrida espacial.

Dystopia, o álbum de estreia dos australianos Midnight Juggernauts, podia bem ser um foguetão.

Esta estranha nave e os seus tripulantes não exploram planetas convencionais, mas galáxias musicais, do indie à electrónica, do synth-rock ao psicadelismo.

Into The Galaxy é uma excelente canção pop, perdida entre os idos de 70 e 80 e um futuro familiar à ficção científica. O refrão é para lá de orelhudo. No site oficial da banda, os Midnight Juggernauts definem este primeiro trabalho assim: "it's the future - past and present - all rolled into one"
Uma viagem através do tempo e do espaço, é o que promete este trio que já conquistou o país natal, prepara-se agora para conquistar o resto mundo e, não tarda, o universo.

Parece que depois do grande revivalismo punk assistimos agora ao regresso das sonoridades electrónicas dos finais da década de 70, inícios de 80, e aos temas sci-fi. Na linha da frente vai Dystopia, ou não tivesse já sido considerado um dos melhores álbuns do ano.

Imparáveis, os Midnight Juggernauts, nesta viagem Into The Galaxy.

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"United nations
Interrelations
A declaration
Of hypertension"

quarta-feira, 26 de março de 2008

Wordsong - Les Mots (2002)

Musicar grandes poetas é sempre uma operação de alto risco. E foi este o meu primeiro pensamento ao ouvir (Brave) Save My Soul, single de apresentação para Pessoa, segundo álbum do projecto Wordsong.

Constituído por algumas das mais míticas figuras do panorama musical português - Pedro D'Orey (Mler If Dada), Alexandre Cortez (Rádio Macau), entre outros - este projecto multimédia revisita a poesia de Al Berto, no primeiro álbum (2002) e de Fernando Pessoa no segundo (2006).

Curiosamente a cronologia parece estar trocada: Pessoa introduziu-me no mundo Wordsong e só depois descobri o primeiro trabalho.

Ora, dizia eu que musicar poemas clássicos é perigoso. Não que os Wordsong não o tenham feito com competência. Não é isso. É que há um quê de quase sagrado nas palavras escritas que lemos nos livros da escola e da biblioteca da terra. E é estranho ver aquelas palavras imaculadas na boca de um tipo magro que gesticula e dança por entre luzes, figuras e sons estranhos.

(Brave) Save My Soul, com excertos de Pessoa, soube-me a pouco, quando a ouvi na rádio pela primeira vez. É preciso ver Wordsong ao vivo para que a verdadeira essência do projecto se revele e nos conquiste. Os registos de estúdio ficam muito aquém do espectáculo em palco, muito por culpa dos efeitos visuais a cargo de Nuno Franco no primeiro álbum e de Rita Sá no segundo. Mas também por culpa do carisma emanente da voz e presença de Pedro D'Orey.

Ao vivo, os Wordsong respiram e transpiram mesmo poesia. Há um envolvimento inexplicável daqueles homens em palco com as palavras e os sons.

Proponho para hoje Les Mots, excertos do poema Le Plus Grand Calligraphe, de Al Berto. Uma canção que se entranha, de ritmo irresistível, ou não fosse mesmo assim a cadência da poesia de Al Berto.

Sem mais palavras, para ouvir e saborear, Les Mots, Wordsong.


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"les mots,
les mots fruits,
les mots jus,
les mots à mordre, les mots"

terça-feira, 25 de março de 2008

Moby - The Sky is Broken (1999)

Numa altura em que Moby se prepara para lançar Last Night, o seu novo trabalho de estúdio, regresso a Play, álbum que não tendo sido o primeiro, pôs o músico definitivamente no mapa da pop electrónica.

Play foi bem recebido pela crítica, apesar de a utilizaçao de samples de velhas músicas blues ter sido polémica. A Rolling Stone chegou mesmo a considerá-lo um dos 500 melhores álbuns de todos os tempos. Nenhum outro trabalho de Moby teria tanto impacto.

E o mais curioso é que todas as canções do álbum de 1999 foram compostas e tocadas por Moby. Até a remistura das faixas ficou a seu cargo, com excepção para Honey e Natural Blues.

Robert Melville Hall, de seu nome, é um artista completo. Para além da música, de texturas ambiente e electrónica cruzadas por vezes com o house e os blues, Moby faz também fotografia e desenhos que serviram depois para a produção dos seus videoclips.

Play é mais que um disco de pop electrónica.Moby não se preocupou apenas em criar ambientes sonoros. Também fez poesia. Porcelain, um dos singles, tem dos melhores versos de abertura que uma canção pode ter.

E depois há The Sky Is Broken, a minha proposta para hoje. Poesia declamada envolta em electrónica.


The Sky Is Broken, Moby.


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"I watch it lift up to the sky,
I watch it crush me,
And then I die."