Estive a ler o último post que escrevi sobre os Wordsong. Não o devia ter feito, agora não sei o que diga, sem estar a repetir-me.
Continuo a gostar mais de Al Berto que de Pessoa, não me perguntem porquê, que eu não saberei dizer com precisão. Talvez seja por me soar mais experimental, talvez seja por causa do poeta, não sei.
Continuo a achar Pedro D'Orey um dos mais carismáticos vocalistas portugueses. Ninguém faz aquilo que ele consegue fazer com as palavras. Ninguém. Muito para além de cantar, muito para além do mero spoken word.
Continuo a ver naquela banda um envolvimento e uma criatividade sem par que não se esgota na simples adaptação de poemas. Eles são aqueles poemas. É quase como se as teclas fizessem um verso, o baixo outro, a guitarra outro, a bateria outro, a voz outro, as imagens outro ainda. E dessa conjugação nascesse o poema, e não da queda da laranja.
Os Wordsong continuam a ser um dos projectos mais estimulantes da música nacional.
5 Fotografias, para os Wordsong.
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"Apesar de Alexandre ter um olho de cada cor, a fotografia tinha o rigor das imagens a preto e branco."
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quarta-feira, 29 de julho de 2009
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Tó Trips & Tiago Gomes - End Of An Endless Road (2009)
Não li Pela Estrada Fora aos 18 anos, como Tiago Gomes. Devia tê-lo feito. Não sei como é que Kerouac me escapou durante tanto tempo, mas sei que já me marcou. Para sempre.
Não cheguei a ver ao vivo On The Road, o projecto que junta a guitarra de Tó Trips às palavras de Tiago Gomes. Por essa e outras razões, fiquei contente quando que algumas canções tinham sido gravadas e dado origem ao Ep da colecção Optimus Discos Vi-os a Desaparecer na Noite.
Estou cada vez mais apaixonada pelo spokenword, pela forma inconfundível como Tó Trips toca guitarra, pela voz (que ao início me parecia monótona) desarmante de Tiago Gomes e por Kerouac. Para além de o ambiente criado pela dupla ser irrepreensível, o mais fiel que conseguiram ao imaginário de Pela Estrada Fora, a escolha dos excertos foi um tiro perfeito. Tirando uma ou outra canção, também eu teria escolhido aquelas passagens.
Em especial esta, que deu origem à faixa mais arrepiante de Vi-os Desaparecer na Noite. É que, logo aos primeiros acordes de End Of An Endless Road consigo ver Sal sentado no velho molhe por cima de New Jersey, também eu consigo ver Dean Moriarty no seu casaco andrajoso e comido pelas traças a subir para o comboio. Na guitarra de Trips e nas palavras resignadas e melancólicas de Tiago Gomes vejo tudo isto.
Mais um Ep obrigatório.
Tó Trips & Tiago Gomes, End Of An Endless Road.
________
"Sem que ninguém, absolutamente ninguém,
Saiba o que vai suceder a ninguém,
Além dos desamparados farrapos do envelhecer,
Penso em Dean Moriarty.
Penso mesmo no velho Dean Moriarty,
O pai que nunca encontrámos.
Penso em...
'What's up, Dean?'"
Não cheguei a ver ao vivo On The Road, o projecto que junta a guitarra de Tó Trips às palavras de Tiago Gomes. Por essa e outras razões, fiquei contente quando que algumas canções tinham sido gravadas e dado origem ao Ep da colecção Optimus Discos Vi-os a Desaparecer na Noite.
Estou cada vez mais apaixonada pelo spokenword, pela forma inconfundível como Tó Trips toca guitarra, pela voz (que ao início me parecia monótona) desarmante de Tiago Gomes e por Kerouac. Para além de o ambiente criado pela dupla ser irrepreensível, o mais fiel que conseguiram ao imaginário de Pela Estrada Fora, a escolha dos excertos foi um tiro perfeito. Tirando uma ou outra canção, também eu teria escolhido aquelas passagens.
Em especial esta, que deu origem à faixa mais arrepiante de Vi-os Desaparecer na Noite. É que, logo aos primeiros acordes de End Of An Endless Road consigo ver Sal sentado no velho molhe por cima de New Jersey, também eu consigo ver Dean Moriarty no seu casaco andrajoso e comido pelas traças a subir para o comboio. Na guitarra de Trips e nas palavras resignadas e melancólicas de Tiago Gomes vejo tudo isto.
Mais um Ep obrigatório.
Tó Trips & Tiago Gomes, End Of An Endless Road.
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"Sem que ninguém, absolutamente ninguém,
Saiba o que vai suceder a ninguém,
Além dos desamparados farrapos do envelhecer,
Penso em Dean Moriarty.
Penso mesmo no velho Dean Moriarty,
O pai que nunca encontrámos.
Penso em...
'What's up, Dean?'"
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terça-feira, 21 de abril de 2009
O Maquinista - O Silêncio é o Paraíso (2009)
O Sérgio Godinho tem razão. Isto anda tudo ligado.
Tenho andado cada vez mais embrenhada no mundo do spoken word. Que género fascinante! Está lá tudo, música, literatura, imagem, performace. Uma mistura que, quando bem feita, arrepia mesmo.
A palavra dita acompanhada por música e a chamada slam poetry não é coisa de hoje. Desde o final da década de 20 que muitos o fazem.
Lá fora os torneios espontâneos de slam enchem os clubes. Os espaços nocturnos enchem-se de poesia. Por cá, as coisas têm o seu tempo. E a seu tempo também a poesia vai invadir os clubes. O caminho já tem sido (bem) trilhado por alguns nomes de referência como Adolfo Luxúria Canibal, Wordsong, Rodrigo Leão, Tiago Gomes e Tó Trips ou, mais recentemente, João Branco Kyron, O Maquinista.
Ambientes musicais densos, uma voz quase sussurrada, cansada e poemas estonteantes. É assim o álbum anónimo d' O Maquinista. Inspirado em nomes como Kerouac ou Burroughs, João Kyron dá ênfase às palavras, envolve-as em música, transpira poesia.
É bom saber que ainda há gente que não tem medo das palavras, de as explorar até às últimas consequências.
Numa piscadela de olho ao que aí vem, O Silêncio é o Paraíso, O Maquinista.
__________
Eu queria ouvir as palavras entorpecidas pela fúria acumulada durante a minha longa ausência,
Mas ela só me olhava olhos nos olhos.
E o silêncio que havia sido o paraíso,
O silêncio era o abismo.
Eu só queria ouvir novamente o bálsamo contido na sua voz suave,
Mesmo sabendo que a ausência fora longa demais.
Mas ela imóvel olhava-me nos olhos.
E o silêncio que havia sido o paraíso,
O silêncio era o abismo.
O silêncio é o paraíso.
Tenho andado cada vez mais embrenhada no mundo do spoken word. Que género fascinante! Está lá tudo, música, literatura, imagem, performace. Uma mistura que, quando bem feita, arrepia mesmo.
A palavra dita acompanhada por música e a chamada slam poetry não é coisa de hoje. Desde o final da década de 20 que muitos o fazem.
Lá fora os torneios espontâneos de slam enchem os clubes. Os espaços nocturnos enchem-se de poesia. Por cá, as coisas têm o seu tempo. E a seu tempo também a poesia vai invadir os clubes. O caminho já tem sido (bem) trilhado por alguns nomes de referência como Adolfo Luxúria Canibal, Wordsong, Rodrigo Leão, Tiago Gomes e Tó Trips ou, mais recentemente, João Branco Kyron, O Maquinista.
Ambientes musicais densos, uma voz quase sussurrada, cansada e poemas estonteantes. É assim o álbum anónimo d' O Maquinista. Inspirado em nomes como Kerouac ou Burroughs, João Kyron dá ênfase às palavras, envolve-as em música, transpira poesia.
É bom saber que ainda há gente que não tem medo das palavras, de as explorar até às últimas consequências.
(Mal posso esperar pelo silêncio de Junho... Acho que Lisboa não vai ser a mesma depois disto... Não depois de tanta poesia, de tanta palavra, de tanta música...)
Numa piscadela de olho ao que aí vem, O Silêncio é o Paraíso, O Maquinista.
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Eu queria ouvir as palavras entorpecidas pela fúria acumulada durante a minha longa ausência,
Mas ela só me olhava olhos nos olhos.
E o silêncio que havia sido o paraíso,
O silêncio era o abismo.
Eu só queria ouvir novamente o bálsamo contido na sua voz suave,
Mesmo sabendo que a ausência fora longa demais.
Mas ela imóvel olhava-me nos olhos.
E o silêncio que havia sido o paraíso,
O silêncio era o abismo.
O silêncio é o paraíso.
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Viviane - Serenata à Chuva (2007)
Chove. Têm chovido dias completos. Comprei um guarda-chuva amarelo, no Chinês. Foi uma vida efémera a do pobre guarda-chuva que agora jaz num pequeno caixote-do-lixo da estação do Cais do Sodré.
Tanta chuva e tanto guarda-chuva pelas ruas de Lisboa deu-me vontade de ouvir esta Serenata à Chuva, do álbum homónimo de Viviane, o segundo na carreira a solo da vocalista dos Entre Aspas. As razões são mais ou menos as mesmas que me levam a pôr água na chaleira para fazer um chá, daqueles que fundem sabores. Uma mistura fértil de fado com tango, chanson française, poesia e spoken word. E aquele sotaque delicioso meio algarvio, meio francês, com tiques de fadista.
Serenata à Chuva, com um poema magnífico de Rosa Alice Branco e a participação especial do cubano Mário Riva, a dar uma dimensão incrível à canção, o contrabaixo e as suaves escovas a pontuar, é a música de um dia chuvoso.
Viviane, Serenata à Chuva.
______
"Como o amor altera o sentido da chuva,
Sim, como ela se eleva no ar
E as frases se colam ao vestido.
No interior da pele o poema mudou
Desde que entraste no guarda-chuva
Esquecido a um canto do armário
Talvez o amor seja tudo amar
Sem excepção
E eu que nunca uso guarda-chuva
Assino incondicionalmente este poema"
______
Queria partilhar uma ou duas coisas ou mais convosco: gosto de guarda-chuvas, mesmo quando viram com o vento, gosto porque dão um outro colorido à cidade cinzenta por causa da chuva, porque lançam um véu misterioso sobre as pessoas que o usam. Qualquer dia mudo o título deste blog para O Guarda-Chuva Amarelo. Só porque sim.
Tanta chuva e tanto guarda-chuva pelas ruas de Lisboa deu-me vontade de ouvir esta Serenata à Chuva, do álbum homónimo de Viviane, o segundo na carreira a solo da vocalista dos Entre Aspas. As razões são mais ou menos as mesmas que me levam a pôr água na chaleira para fazer um chá, daqueles que fundem sabores. Uma mistura fértil de fado com tango, chanson française, poesia e spoken word. E aquele sotaque delicioso meio algarvio, meio francês, com tiques de fadista.
Serenata à Chuva, com um poema magnífico de Rosa Alice Branco e a participação especial do cubano Mário Riva, a dar uma dimensão incrível à canção, o contrabaixo e as suaves escovas a pontuar, é a música de um dia chuvoso.
Viviane, Serenata à Chuva.
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"Como o amor altera o sentido da chuva,
Sim, como ela se eleva no ar
E as frases se colam ao vestido.
No interior da pele o poema mudou
Desde que entraste no guarda-chuva
Esquecido a um canto do armário
Talvez o amor seja tudo amar
Sem excepção
E eu que nunca uso guarda-chuva
Assino incondicionalmente este poema"
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Queria partilhar uma ou duas coisas ou mais convosco: gosto de guarda-chuvas, mesmo quando viram com o vento, gosto porque dão um outro colorido à cidade cinzenta por causa da chuva, porque lançam um véu misterioso sobre as pessoas que o usam. Qualquer dia mudo o título deste blog para O Guarda-Chuva Amarelo. Só porque sim.
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