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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Viviane - Serenata à Chuva (2007)

Chove. Têm chovido dias completos. Comprei um guarda-chuva amarelo, no Chinês. Foi uma vida efémera a do pobre guarda-chuva que agora jaz num pequeno caixote-do-lixo da estação do Cais do Sodré.

Tanta chuva e tanto guarda-chuva pelas ruas de Lisboa deu-me vontade de ouvir esta Serenata à Chuva, do álbum homónimo de Viviane, o segundo na carreira a solo da vocalista dos Entre Aspas. As razões são mais ou menos as mesmas que me levam a pôr água na chaleira para fazer um chá, daqueles que fundem sabores. Uma mistura fértil de fado com tango, chanson française, poesia e spoken word. E aquele sotaque delicioso meio algarvio, meio francês, com tiques de fadista.

Serenata à Chuva, com um poema magnífico de Rosa Alice Branco e a participação especial do cubano Mário Riva, a dar uma dimensão incrível à canção, o contrabaixo e as suaves escovas a pontuar, é a música de um dia chuvoso.

Viviane, Serenata à Chuva.

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"Como o amor altera o sentido da chuva,
Sim, como ela se eleva no ar
E as frases se colam ao vestido.
No interior da pele o poema mudou
Desde que entraste no guarda-chuva
Esquecido a um canto do armário


Talvez o amor seja tudo amar
Sem excepção

E eu que nunca uso guarda-chuva
Assino incondicionalmente este poema"


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Queria partilhar uma ou duas coisas ou mais convosco: gosto de guarda-chuvas, mesmo quando viram com o vento, gosto porque dão um outro colorido à cidade cinzenta por causa da chuva, porque lançam um véu misterioso sobre as pessoas que o usam. Qualquer dia mudo o título deste blog para O Guarda-Chuva Amarelo. Só porque sim.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Amália Rodrigues - O Senhor Extraterrestre (1981)

"Vou contar-vos uma história

que não me sai da memória

foi p'ra mim uma vitória

nesta era espacial.

Noutro dia estremeci

quando abri a porta e vi

um grandessíssimo ovni

pousado no meu quintal."


A minha visita de sábado a esse templo de coisas usadas que é a Cashland rendeu-me, nada mais nada menos, que a grande pérola da discografia de Amália: um 45 rotações de O Senhor Extraterrestre.

Achados destes não acontecem todos os dias. Nos cestos de discos de vinil usados amontoam-se muitas coisas sem qualquer interesse: os típicos discos de conjuntos da música popular portuguesa, muita música romântica francesa e brasileira, best of radiofónicos, ente outros. Mas há dias em que a sorte está connosco. As dores nos joelhos, de vasculhar os cestos no chão, já me valeram coisas bem interessantes: Breakfast in America, dos Supertramp, a poucos cêntimos, capa muito velhinha, mas o vinil, em muitíssimo bom estado, ainda rodou muitas vezes no gira-discos dos meus pais; um 45 rotações dos Bon Jovi, que fez as delícias do meu irmão mais novo; um álbum duplo dos Simple Minds ao vivo, mais carote; dois discos dos Kajagoogoo; um dos Police, The Century, Rod Stewart e, meus senhores, a pérola das pérolas, este O Senhor Extraterrestre de que hoje vos falo. Com este 45 rotações de Amália, rivaliza O Feitiço de Ney Matogrosso, a melhor capa que já vi até hoje.

Agarrei-me logo à capa colorida d' O Senhor Extraterrestre porque, desde que tive conhecimento desta bizarra composição no Há Vida em Markl, nunca pensei que fosse possível encontrá-lo assim, num cesto da Cashland entre Roberto Leal e Art Sulivan. Aliás, O Senhor Extraterrestre podia bem ser um mito. Nunca ter existido.

Mas existe. Uma grande rodela de vinil amarelo-transparente. Agora orgulhosamente em exposição na minha sala. Quero agradecer publicamente à antiga proprietária pelo facto de O Senhor Extraterrestre ter pousado agora o seu ovní na minha alegre casinha. Dona Adelaide, os meus obrigados.



Passo a explicar o porquê de tanta euforia em torno desta composição de Carlos Paião para Amália Rodrigues. O Senhor Extraterrestre é, nada mais nada menos, a prova de que o fado não tem que ser uma canção necessariamente triste. Nem sequer séria. Já sabíamos que há certo fado mais alegre, gozão, até. Mas ouvir a grande Amália contar a história do seu encontro com um tipo verde é qualquer coisa.

Lia ontem um crítico da Time Out dizer, a propósito do novo álbum dos Moonspell, que o que falta ao metal em geral, e à banda portuguesa em particular, é a capacidade de fazer humor. Dizia ele que Fernando Ribeiro deveria cantar mais temas como Abram Alas Para o Noddy.
Não discordo.
A música é um meio de expressão, e ninguém está sempre feliz ou sempre deprimido. Os bons álbuns e os bons músicos são capazes de mostrar esses altos e baixos da vida com coerência.

E se me perguntarem se é coerente os Moonspell cantarem o tema do Noddy e Alma Mater, direi que sim. E se me perguntarem se é coerente Amália cantar Povo que Lavas no Rio e O Senhor Extraterrestre, direi que sim. Porque a vida é mesmo assim.

E na vida surpreendentes encontros acontecem.
Como este, entre Amália Rodrigues e O Senhor Extraterrestre.

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"Já está de chaves na mão?


Vai voltar p'ro avião?


Espere, já ali estão


umas sandes p'ra viagem


E o Senhor Extraterrestre


Viu-se um pouco atrapalhado


quis falar mais disse pi


estava mal sintonizado


mexeu lá no botãozinho


só p'ra dizer: Deus lhe pague.


Eu dei-lhe um copo de vinho


e lá foi no seu caminho


que era um pouco em ziguezague."

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Camané - Sopram Ventos Adversos (2003)

Para mim, Camané é o mais seguro dos fadistas contemporâneos. É uma estrela discreta, trabalha ao seu tempo, e imprime de serenidade e simultânea expressão as canções. As suas e as daqueles que revisita.

Escolhe cantar os poemas de que gosta e tem o prazer de trabalhar, desde logo, com grandes nomes, grandes inspirações.

É o caso de José Mário Branco, companheiro de lides musicais, a quem pede emprestado este Sopram Ventos Adversos.

Em 2003 interpreta este clássico da música portuguesa com os Xutos & Pontapés, na série de concertos acústicos reunidos no álbum Nesta Cidade. E é esta versão a que proponho para hoje.

Fadista, certamente, mas sobretudo um artista, é comum vermos Camané a cantar com músicos de todas as escolas musicais. Mais improvável é vê-lo cantar em casas de fado.

Sempre de Mim, o novo trabalho, marca o regresso do fadista aos originais já a 21 deste mês.

Até lá, Sopram Ventos Adversos, José Mário Branco revisitado por Camané.

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"Nos mastros que vão quebrar
Soltas velas de cambraia
E é cada remo a tentar
menos um barco no mar
mais um cadáver na praia"

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Para apontar na agenda

Camané ao vivo, dia 16 de Maio no Coliseu de Lisboa.