No sábado estive no Restelo. Eu e mais de 40 mil pessoas. Para ver os Xutos & Pontapés.
Quando entrei o emaranhado de gente já passava - e muito - do meio campo. Furámos por entre o público mais ecléctico que se possa imaginar. Novos, velhos, de preto, de branco, com maquilhagem ou suor no rosto, com copos de cerveja ou tubos de pasta de vodka na mão, uns pequeninos pelas mãos dos pais, uns sentados no chão, outros de pé, muitos lenços vermelhos, brancos e laranja, muitas t-shirts, bandeiras e bóias. Cheiro a tabaco, charros, transpiração e álcool. Muitos repetentes, poucos estreantes. Uns mais no espírito que outros.
Ficámos junto ao prolongamento do palco. Eu e o meu irmão fazíamos apostas sobre a canção de abertura. Concordámos que seria do novo e homónimo álbum. Talvez não fosse o single, muito menos seria Sem Eira Nem Beira, que só podia estar guardada lá mais para a frente. Apostei em Tetris Anónimus. O Fábio ganhou. Afinal foi mesmo Quem é Quem que abriu a noite.
O que se passou nas 3 horas seguintes nem toda a gente entende. Só quem cresceu a ouvir os Xutos é que percebe o que se sente ali no meio. Não é preciso ter estado lá, na cave, em 79. É preciso ter crescido ao som disto, tenha sido nos anos 70, 80, 90 ou 2000.
Já perdi a conta às horas que passei a ouvir os discos, os concertos a que fui, as coisas que li. Não há outra banda que me diga mais. Das canções mais antigas às mais recentes, estão lá muitos episódios, muitos ideiais partilhados, muitas histórias de vida, muitas preocupações, muitos desabafos. Está lá isso tudo. Quantas vezes não pensei na Morte Lenta, no Medo, nas palavras de Quando Eu Morrer rabiscadas nos cadernos da escola? Comigo também era sempre assim: eu sei lutar até ao fim, é tudo ou nada, como na canção que eu adorava ouvir também na voz do Tó Trips, dos Lulu Blind.
Mais tarde senti o que era a vontade de embarcar nos Barcos Gregos: faltava-me o ar, faltava-me o emprego p'ra cá ficar. Por vezes vi a vida torta, jamais se endireitava, como num Circo de Feras. Apaixonei-me vezes sem conta ao som de Conta-me Histórias. Ainda hoje não conheço versos tão sábios como os do Homem do Leme. Vi tantos filhos da puta sem razão e sem sentido nesta cidade, quis deixar a carga pronta e metida nos contentores. Disse Olá à vida Malvada, aprendi a tocar guitarra com N'América. Quis tudo À Minha Maneira, fiz filmes inspirados em Enquanto a Noite Cai, arrepiava-me com Doçuras. Diverti-me com Para Ti Maria e Sou Bom. Chorei muitas vezes ao constatar que vivia num Pêndulo imparável. Gritei Gritos Mudos, acreditei num Futuro Que Era Brilhante. Acordei em Lugar Nenhum tantas vezes, apanhei tanta chuva dissolvente no meu caminho de casa... Ainda hoje acho que está tudo mal, tudo mal, que a política está em estado de Estupidez, que o dinheiro para mim não conta, eu trabalho por prazer, mas também sabe bem ter um ordenado ao fim do mês, um dia de S. Receber. Fui uma ovelha negra, carneiro preto, fui direito ao deserto. Já não tenho paciência para as misérias de quem manda nesta terra do sem-querer, nem para jogos do empurra. Dei muitos mergulhos no mar e espero continuar a dar. Vi o panóptico das aulas da faculdade em Privacidade. Tantas e tantas vezes senti que tinha chegado o momento de correr tanto ou mais que o vento, de correr tanto ao mais que o tempo... ah, mas não foi assim. Desci ao Inferno, vi o Mundo Ao Contrário, passei pela Zona Limite, projectei a minha própria Sombra Colorida. Pensei para comigo que na verdade eu não sou de cá, vivo em permanente Estado de Dúvida, e não há nada melhor que o Amor Com Paixão. Vejo Sócrates e todos os outros políticos em Sem Eira Nem Beira.
Sei que não sou um caso isolado, não sou a única. Não!
_________
"Pensas que eu sou um caso isolado
Não sou o único a olhar o céu
A ouvir os conselhos dos outros
E sempre a cair nos buracos
A desejar o que não tive
Agarrado ao que não tenho
Não, não sou o único
Não sou o único a olhar o céu"
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
The Vaselines - Son Of A Gun (1987)
Sei que não fui a única a conhecer os Vaselines através dos Nirvana e de covers de canções como este Son Of A Gun. Até hoje - o dia em que me chegou às mãos a deluxe edition de Enter The Vaselines, o duplo álbum com toda a discografia remasterizada e alguns bónus da banda de Eugene Kelly e Frances McKee - ainda não consegui entender como é que os Vaselines passaram despercebidos e constam tão ao de leve na história da música indie.
Não fosse Kurt Cobain, fã confesso da dupla escocesa, talvez os Vaselines não tivessem chegado a tanta gente. (A propósito, quantas bandas fizeram questão de revisitar bandas improváveis e pouco conhecidas e até de levá-las a subir ao palco?)
E o que é que os Vaselines têm? Para além de duas vozes transbordantes de carisma por, precisamente, estarem-se completamente nas tintas para o carisma; para além da irónica ingenuidade com que falam de sexo; para além das buzinas em Molly's Lips; da frontalidade absolutamente desarmante de Rory Rides Me Raw; da pronúncia fazer transformar "ugly" em "uguly"; das guitarras ora garage ora mais country; do ritmo frenético e viciante de Dum Dum; da sonoridade crua vinda directamente da garagem; para além disto, os Vaselines têm tudo. É aquela coisa a que alguns chamam honestidade. Ou verdade.
Foi certamente por isso que Cobain disse um dia que Kelly e McKee eram os melhores compositores de sempre.
The Vaselines, Son of a Gun.
______
Não fosse Kurt Cobain, fã confesso da dupla escocesa, talvez os Vaselines não tivessem chegado a tanta gente. (A propósito, quantas bandas fizeram questão de revisitar bandas improváveis e pouco conhecidas e até de levá-las a subir ao palco?)
E o que é que os Vaselines têm? Para além de duas vozes transbordantes de carisma por, precisamente, estarem-se completamente nas tintas para o carisma; para além da irónica ingenuidade com que falam de sexo; para além das buzinas em Molly's Lips; da frontalidade absolutamente desarmante de Rory Rides Me Raw; da pronúncia fazer transformar "ugly" em "uguly"; das guitarras ora garage ora mais country; do ritmo frenético e viciante de Dum Dum; da sonoridade crua vinda directamente da garagem; para além disto, os Vaselines têm tudo. É aquela coisa a que alguns chamam honestidade. Ou verdade.
Foi certamente por isso que Cobain disse um dia que Kelly e McKee eram os melhores compositores de sempre.
The Vaselines, Son of a Gun.
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"The sun shines in the bedroom when you play,
And the raining always starts when you go away."
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sábado, 27 de junho de 2009
The Legendary Tigerman & Asia Argento - Life Ain't Enough For You (2009)
Já foi adiado vezes sem conta durante o ano, mas parece que desta é de vez! Femina, o mais recente trabalho de Paulo Furtado enquanto The Legendary Tigerman deve chegar aos escaparates em Setembro e, a julgar pelo primeiro avanço... a espera valeu mais que a pena!
As minhas expectativas já estavam lá nos píncaros. Primeiro, porque se trata de Tigerman e não se pode esperar outra coisa que não um excelente álbum. Depois, pela particularidade de este disco contar com presenças femininas de luxo: Asia Argento, que partilha este Life Ain't Enough For You, Peaches, Becky Lee, Rita Redshoes, Maria de Medeiros, Cláudia Efe, Rita Braga... Luxo é, portanto, uma palavra pequenina para tão certeiras escolhas.
O single é delicioso e mal posso esperar pelo resto do álbum! As vozes da multifacetada artista italiana e de Paulo Furtado fundem-se numa quase perfeição sussurrada, a guitarra acompanha-os, sem sobressaltos. Life Ain't Enough For You é um pequeno rebuçado. Só sei dizer que estes dois meses de espera vão ser duros.
Até lá, Life Ain't Enough For You, The Legendary Tigerman. Mais que obrigatório.
_______
"I say life ain't enough for you,
You say, baby what you gonna do?"
As minhas expectativas já estavam lá nos píncaros. Primeiro, porque se trata de Tigerman e não se pode esperar outra coisa que não um excelente álbum. Depois, pela particularidade de este disco contar com presenças femininas de luxo: Asia Argento, que partilha este Life Ain't Enough For You, Peaches, Becky Lee, Rita Redshoes, Maria de Medeiros, Cláudia Efe, Rita Braga... Luxo é, portanto, uma palavra pequenina para tão certeiras escolhas.
O single é delicioso e mal posso esperar pelo resto do álbum! As vozes da multifacetada artista italiana e de Paulo Furtado fundem-se numa quase perfeição sussurrada, a guitarra acompanha-os, sem sobressaltos. Life Ain't Enough For You é um pequeno rebuçado. Só sei dizer que estes dois meses de espera vão ser duros.
Até lá, Life Ain't Enough For You, The Legendary Tigerman. Mais que obrigatório.
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"I say life ain't enough for you,
You say, baby what you gonna do?"
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segunda-feira, 18 de maio de 2009
Bob Dylan - Life is Hard (2009)
Bob Dylan é um génio, e continua a sê-lo, sem tirar nem pôr, em 2009. Se alguma poeira de dúvida restasse, Together Through Life está aí para prová-lo.
Não foi fácil esscolher a música do dia, as 10 que compõem o novíssimo álbum de Dylan são irrepreensíveis. Tenho estado a ouvi-las sofregamente desde sexta-feira. Podia ter escolhido a agitada It's All Good, a guitarra viciante de Jolene, a mais rockeira Shake Shake Mama, a deliciosa e quase veraneante I Feel a Change Comin' On, a bluesy My Wife's Home Town, o acordeão de This Dream Of You, os grandes otovermes (no bom sentido) If You Ever Go To Houston e Forgetful Heart ou o single Beyond Here Lies Nothin'. Escolhi Life is Hard, a mais introspectiva das 10 canções, também pelo dedilhar arrepiante da guitarra no início, mas principalmente pelo poema. Quem escreve assim não é gago. É um génio. É que não é fácil - é duro mesmo - pôr em palavras o que a palavra amizade significa, e o quanto as ausências doem.
Por isso, deixo aqui o poema na íntegra. Agora vão procurar a música, porque as palavras ganham outra intensidade na voz rouca e suja de Bob Dylan.
Together Through Life é mais um disco obrigatório. Como todos os outros - sem excepção - de Dylan.
Life is Hard, Bob Dylan.
_______
"The evening winds are still
I've lost the way and will
Can’t tell you where they went
I just know what they meant
I’m always on my guard
Admitting life is hard
Without you near me
The friend you used to be,
So near and dear to me
You slipped so far away,
Where did we go astray
I passed the old school yard,
Admitting life is hard
Without you near me
Ever since the day,
The day you went away
I felt that emptiness so wide
I don’t know what's wrong or right
I just know I need strength to fight,
Strength to fight that world outside
Since we've been out of touch
I haven't felt that much
From day to barren day
My heart stays locked away
I walk the boulevard,
Admitting life is hard
Without you near me
The sun is sinking low
I guess it's time to go
I feel a chilly breeze
In place of memories
My dreams are locked and barred
Admitting life is hard
Without you near me"
Não foi fácil esscolher a música do dia, as 10 que compõem o novíssimo álbum de Dylan são irrepreensíveis. Tenho estado a ouvi-las sofregamente desde sexta-feira. Podia ter escolhido a agitada It's All Good, a guitarra viciante de Jolene, a mais rockeira Shake Shake Mama, a deliciosa e quase veraneante I Feel a Change Comin' On, a bluesy My Wife's Home Town, o acordeão de This Dream Of You, os grandes otovermes (no bom sentido) If You Ever Go To Houston e Forgetful Heart ou o single Beyond Here Lies Nothin'. Escolhi Life is Hard, a mais introspectiva das 10 canções, também pelo dedilhar arrepiante da guitarra no início, mas principalmente pelo poema. Quem escreve assim não é gago. É um génio. É que não é fácil - é duro mesmo - pôr em palavras o que a palavra amizade significa, e o quanto as ausências doem.
Por isso, deixo aqui o poema na íntegra. Agora vão procurar a música, porque as palavras ganham outra intensidade na voz rouca e suja de Bob Dylan.
Together Through Life é mais um disco obrigatório. Como todos os outros - sem excepção - de Dylan.
Life is Hard, Bob Dylan.
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"The evening winds are still
I've lost the way and will
Can’t tell you where they went
I just know what they meant
I’m always on my guard
Admitting life is hard
Without you near me
The friend you used to be,
So near and dear to me
You slipped so far away,
Where did we go astray
I passed the old school yard,
Admitting life is hard
Without you near me
Ever since the day,
The day you went away
I felt that emptiness so wide
I don’t know what's wrong or right
I just know I need strength to fight,
Strength to fight that world outside
Since we've been out of touch
I haven't felt that much
From day to barren day
My heart stays locked away
I walk the boulevard,
Admitting life is hard
Without you near me
The sun is sinking low
I guess it's time to go
I feel a chilly breeze
In place of memories
My dreams are locked and barred
Admitting life is hard
Without you near me"
quinta-feira, 5 de março de 2009
Rita Lee - Baila Comigo (1980)
Rita Lee é aquele bicho estranho. Há quem lhe chame Vovó Rock, e na verdade, a cantora e compositora brasileira lançou-se no final dos anos 60 e passou as décadas de 70, 80, 90 até aos dias de hoje, sempre a compor, sempre polémica, sempre sem papas na língua.
Ouvi hoje, quase por acaso, este Baila Comigo, um tema delicioso, daqueles que apetece cantar quando a Primavera se demora, e é urgente pensar em algo mais que ventanias, vendavais, aguaceiros e as milhentas coisas que temos para fazer.
Baila Comigo, Rita Lee.
_______
"Se Deus quiser,
Um dia eu quero ser índio
Viver pelado pintado de verde
Num eterno domingo
Ser um bicho-preguiça,
Espantar turista
E tomar banho de sol, banho de sol,
Banho de sol, sol
Se Deus quiser,
Um dia acabo voando
Tão banal assim como um pardal
Meio de contrabando
Desviar do estilingue
Deixar que me xinguem
E tomar banho de sol, banho de sol,
Banho de sol, banho de sol
Baila comigo, como se baila na tribo
Baila comigo, lá no meu esconderijo
Se Deus quiser,
Um dia eu viro semente
E quando a chuva molhar o jardim
Ah, eu fico contente
E na primavera vou brotar na terra
E tomar banho de sol, banho de sol,
Banho de sol, sol
Se Deus quiser,
Um dia eu morro bem velha
Na hora H quando a bomba estourar
Quero ver da janela
E entrar no pacote de de camarote
E tomar banho de sol, banho de sol,
Banho de sol, banho de sol
Baila comigo, como se baila na tribo
Baila comigo, lá no meu esconderijo"
Ouvi hoje, quase por acaso, este Baila Comigo, um tema delicioso, daqueles que apetece cantar quando a Primavera se demora, e é urgente pensar em algo mais que ventanias, vendavais, aguaceiros e as milhentas coisas que temos para fazer.
Baila Comigo, Rita Lee.
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"Se Deus quiser,
Um dia eu quero ser índio
Viver pelado pintado de verde
Num eterno domingo
Ser um bicho-preguiça,
Espantar turista
E tomar banho de sol, banho de sol,
Banho de sol, sol
Se Deus quiser,
Um dia acabo voando
Tão banal assim como um pardal
Meio de contrabando
Desviar do estilingue
Deixar que me xinguem
E tomar banho de sol, banho de sol,
Banho de sol, banho de sol
Baila comigo, como se baila na tribo
Baila comigo, lá no meu esconderijo
Se Deus quiser,
Um dia eu viro semente
E quando a chuva molhar o jardim
Ah, eu fico contente
E na primavera vou brotar na terra
E tomar banho de sol, banho de sol,
Banho de sol, sol
Se Deus quiser,
Um dia eu morro bem velha
Na hora H quando a bomba estourar
Quero ver da janela
E entrar no pacote de de camarote
E tomar banho de sol, banho de sol,
Banho de sol, banho de sol
Baila comigo, como se baila na tribo
Baila comigo, lá no meu esconderijo"
terça-feira, 3 de março de 2009
Jack White & Alicia Keys - Another Way To Die (2008)
Não sou fã da saga James Bond, como todos lá em casa. Não vi, nem tenciono ver num futuro próximo, Quantum Of Solace. Alicia Keys não é uma artista da minha eleição. Gosto do trabalho de Jack White, nos White Stripes, mas nada que me tire o sono. Então porque é que Another Way To Die me soa tão bem?
Não sei.
Tenho algumas suspeitas. Desde logo, é interessante ver um rocker e uma artista r&b como estes dois em dueto, o 1º de todas as bandas-sonoras de filmes do 007. Depois, parece-me que este é o tema que conjuga melhor o glamour associado ao universo Bond com uma certa tensão irreverente, dada sobretudo pelos dedos (na guitarra e na produção) de Jack White.
Fascina-me, sobretudo, que o lado mais "clássico" do tema seja quebrado pela guitarra de White, que funciona como um quase improviso, como um pisar fora do risco. O registo dos dois também é delicioso. É pop, é soul, é rock também.
Não sendo brilhante, é uma ousadia bem interessante de ouvir.
Jack White e Alicia Keys, Another Way To Die.
______
"A door left open, a woman walking by
A drop in the water, a look in the eye
A phone on the table, a man on your side
Or someone that you think that you can trust
It's just another way to die"
Não sei.
Tenho algumas suspeitas. Desde logo, é interessante ver um rocker e uma artista r&b como estes dois em dueto, o 1º de todas as bandas-sonoras de filmes do 007. Depois, parece-me que este é o tema que conjuga melhor o glamour associado ao universo Bond com uma certa tensão irreverente, dada sobretudo pelos dedos (na guitarra e na produção) de Jack White.
Fascina-me, sobretudo, que o lado mais "clássico" do tema seja quebrado pela guitarra de White, que funciona como um quase improviso, como um pisar fora do risco. O registo dos dois também é delicioso. É pop, é soul, é rock também.
Não sendo brilhante, é uma ousadia bem interessante de ouvir.
Jack White e Alicia Keys, Another Way To Die.
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"A door left open, a woman walking by
A drop in the water, a look in the eye
A phone on the table, a man on your side
Or someone that you think that you can trust
It's just another way to die"
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Lulu Blind - Foge de Ti (2001)
Foi em 2001 que conheci Tó Trips.
Foge de Ti, primeiro single para o álbum com o mesmo nome, chegava às rádios e eu chegava aos Lulu Blind.
Era rock do bom, puro e duro. A voz arranhada de Trips, temas difíceis, ambientes áridos, letras improváveis.
Foge de Ti, o álbum, era um objecto estranho na minha estante adolescente.
Donuts no céu...
Coisa feia esta de citar-me a mim mesma. Mas o motivo é mais que justo. Não sei há quanto tempo não me dava tanto gozo pôr um disco a tocar.
Em Abril falava do meu "reencontro" com Trips, a propósito de Lusitânia Playboys, o último trabalho dos Dead Combo. Hoje, voltei a cruzar-me com o guitarrista. Magro, blusão de cabedal, de preto da cabeça aos pés, cabelo desgrenhado, atravessou o escritório sempre naquele passo acelerado, de quem está só de passagem. A pressa não o faz deixar de dizer um afável mas distraído bom dia e um adeus, sempre em andamento.
Por mais anos que passem, por mais projectos em que o veja, aquela voz rouca inconfundível vai fazer-me sempre lembrar de Foge de Ti, o tal álbum branco do anjo astronauta, o terceiro e último na carreira dos Lulu Blind.
Sorri, voltei à minha peça no computador e estava assim encontrada a música do dia. A música não. As músicas do dia. Porque hoje quero propor um álbum inteiro. Vou regressar àqueles dias em que Foge de Ti passava na rádio que deixava sintonizada para adormecer.
Na altura a Internet não era recorrente nas nossas vidas. Ouvia aquele tema tão marcante na rádio e pensava que um dia, fosse como fosse, haveria de conseguir saber onde comprar aquele álbum. E aconteceu. Na secção de música de um impessoal hipermercado. Perdido no meio de compilações e música comercial, reluzia a brancura de Foge de Ti. Não pensei duas vezes e trouxe-o comigo.
Aqueles temas áridos não eram de fácil digestão para ouvidos tão verdes. Talvez tenha sido por isso que posso apontar Foge de Ti como um dos álbuns que mais significado tiveram para mim.
Soube-o hoje, quando o fui resgatar à estante, lhe limpei o pó e o pus de novo a rodar.
Políticas a metro, homem com cabeça de insecto, democracias gastas no tempo..., assim começa Eles. Politicamente incorrecto, aquilo que sou fã e acredito..., e continuava.
E depois havia aquele tema completamente surrealista, a faixa escondida, uma versão de Susto. Ouvia-a vezes sem conta, vezes seguidas, e imaginava filmes e histórias ocultas naquela canção que ainda hoje me arrepia. Baseada nela, escrevi um pequeno guião para uma curt(íssim)a-metragem sobre um tipo que se suicidava num velho barracão abandonado na estrada que dava para a escola. (tenho de ver onde pára isso...).
Se bem me lembro, Atirar-te ao Ar também chegou a ser single. Eu por ti sempre fui assim. Vou A Marte, até ao fim... Delicioso.
Depois havia a doce amante Heroína, que era meio bichinho, meio elefante. Os donuts no céu, de Foge de Ti. A sensualidade delirante de Vento (talvez um dos melhores temas do álbum). A fantástica história do Johnny que acordou de manhã, deu um beijo à mamã e fez-se ao mundo. A urgência de Hoje e tantas outras histórias... Tantas.
É mais que provável que nada disto faça sentido para si, que está a ler este blog. Não se preocupe por isso.
Para além do encontro fortuito de hoje, tenho me encontrado muitas outras vezes com Tó Trips. Para além dos Dead Combo, no fantástico projecto Reservoir Dogs, que revisita a banda-sonora dos filmes de Tarantino, nas ilustrações que assina (já em Foge de Ti o fazia!) como MacKintóxico, e nesta coisa simplesmente brutal que é On The Road, um espectáculo que Trips partilha com o multifacetado Tiago Gomes, em torno do livro com o mesmo nomes de Jack Kerouac, o pai da geração beatnik.
Por tudo isto (e desculpem qualquer coisinha), a música (e o álbum do dia) é Foge de Ti, dos Lulu Blind.
______
"Corre
Foge de ti.
Donuts no céu.
Tu e eu"
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quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Dapunksportif - Teenage Headbanger (2008)
Acabo de "descobrir" os Dapunksportif.
Uma banda de Peniche, já com 2 álbuns de originais, o último deles Electro Tube Riot, lançado este ano. Não posso dizer que a dupla traga uma sonoridade inovadora, mas traz com certeza um rock musculado e visceral, com duas guitarras muito interessantes, e um estilo que vai beber ao punk, ao stonerock, e ao próprio rock 'n' roll. As disponíveis no MySpace são boas canções rock, muito competentes. Estou curiosa para vê-los ao vivo, estou certa de que a força dos Dapunksportif se mostra é ali, em cima de um palco. Gosto da atitude, da voz, e da preponderência das guitarras. Ao vivo, os Dapunksportif convidam músicos de luxo, como Kalú, Filipe Valentim ou Pedro Gonçalves.
Escolhi para hoje este Teenage Headbanger, talvez a canção mais easy do álbum. Não se deixem enganar pelo título, este não é propriamente um tema teen, é mais um flash de memória de um jovem melómano. Daqueles em que todos nós nos revemos.
Não é um mau cartão de visita.
Vale a pena descobrir, Teenage Headbanger, os Dapunksportif.
_____
"Do you remember when
we used to bang our heads
And play the air-guitar
Spending hours listening
To our favourite bands..."
Uma banda de Peniche, já com 2 álbuns de originais, o último deles Electro Tube Riot, lançado este ano. Não posso dizer que a dupla traga uma sonoridade inovadora, mas traz com certeza um rock musculado e visceral, com duas guitarras muito interessantes, e um estilo que vai beber ao punk, ao stonerock, e ao próprio rock 'n' roll. As disponíveis no MySpace são boas canções rock, muito competentes. Estou curiosa para vê-los ao vivo, estou certa de que a força dos Dapunksportif se mostra é ali, em cima de um palco. Gosto da atitude, da voz, e da preponderência das guitarras. Ao vivo, os Dapunksportif convidam músicos de luxo, como Kalú, Filipe Valentim ou Pedro Gonçalves.
Escolhi para hoje este Teenage Headbanger, talvez a canção mais easy do álbum. Não se deixem enganar pelo título, este não é propriamente um tema teen, é mais um flash de memória de um jovem melómano. Daqueles em que todos nós nos revemos.
Não é um mau cartão de visita.
Vale a pena descobrir, Teenage Headbanger, os Dapunksportif.
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"Do you remember when
we used to bang our heads
And play the air-guitar
Spending hours listening
To our favourite bands..."
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segunda-feira, 7 de julho de 2008
The Offspring - Kick Him When He's Down (1992)
Não deve haver muitos casos destes na história da música. Kick Him When He's Down foi single para Ignition, três anos depois de este ter saído para o mercado.
Tenho andado a revisitar os primeiros anos de carreira dos Offspring, quando a banda de Dexter Holland era verdadeiramente punk. Nota-se, à medida que os anos passam, que a música vai ficando mais melódica, menos agressiva, a explorar mais recantos do rock.
Gosto deste Kick Him When He's Down sobretudo pela linha de guitarra, completamente viciante, e pela bateria, muito competente. Não é dos temas mais punk da discografia dos Offspring, mas não admira que, mesmo tanto tempo depois, tenha sido o único single de um disco esquecido.
Para conferir, Kick Him When He's Down, os Offspring.
____
"Awake in a dream, get up and go to work
But I'm feeling like such a jerk
Like I said before
Little men come when everything goes"
Tenho andado a revisitar os primeiros anos de carreira dos Offspring, quando a banda de Dexter Holland era verdadeiramente punk. Nota-se, à medida que os anos passam, que a música vai ficando mais melódica, menos agressiva, a explorar mais recantos do rock.
Gosto deste Kick Him When He's Down sobretudo pela linha de guitarra, completamente viciante, e pela bateria, muito competente. Não é dos temas mais punk da discografia dos Offspring, mas não admira que, mesmo tanto tempo depois, tenha sido o único single de um disco esquecido.
Para conferir, Kick Him When He's Down, os Offspring.
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"Awake in a dream, get up and go to work
But I'm feeling like such a jerk
Like I said before
Little men come when everything goes"
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Coldplay - Violet Hill (2008)
Ontem, por volta do meio dia, Violet Hill chegou às rádios e à internet para download legal e gratuito. O single de avanço para o novo álbum dos Coldplay, Viva La Vida or Death and All His Friends, estará disponível durante seis dias, sem custos, no site da banda britânica.
Não consegui assistir à "estreia" com hora marcada, mas esta manhã sintonizei a rádio e lá estava Violet Hill. Por entre uma garrafa de iogurte, um par de brincos e outro de meias, lá ouvi o novo single. E não sei se foi das tarefas matinais, ou do recente despertar, mas a canção soou-me a cover. São primeiras impressões, bem sei. Mas a melodia parece-me conhecida, nada de novo. Gostei das guitarras, um pouco mais agressivas que nos anteriores registos. Depois temos uma letra a explorar. Há neve, frio de Dezembro... a merecer uma maior atenção.
Eu já fiz o meu download e prometo mais desenvolvimentos para breve.
Enquanto o disco não chega, faça também o seu.
Violet Hill, os Coldplay.
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"I don't want to be a soldier
With the captain of some sinking ship
With snow, far below"
Não consegui assistir à "estreia" com hora marcada, mas esta manhã sintonizei a rádio e lá estava Violet Hill. Por entre uma garrafa de iogurte, um par de brincos e outro de meias, lá ouvi o novo single. E não sei se foi das tarefas matinais, ou do recente despertar, mas a canção soou-me a cover. São primeiras impressões, bem sei. Mas a melodia parece-me conhecida, nada de novo. Gostei das guitarras, um pouco mais agressivas que nos anteriores registos. Depois temos uma letra a explorar. Há neve, frio de Dezembro... a merecer uma maior atenção.
Eu já fiz o meu download e prometo mais desenvolvimentos para breve.
Enquanto o disco não chega, faça também o seu.
Violet Hill, os Coldplay.
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"I don't want to be a soldier
With the captain of some sinking ship
With snow, far below"
quarta-feira, 16 de abril de 2008
The Offspring - The Kids Aren't Alright (1998)
Esta dose musical chega um pouco atrasada, mas o importante é que chega.
Porque uma música por dia - ou duas ou três - nem sabe o bem que lhe fazia.
1998: começava a minha melomania a sério e os Offspring lançavam Americana.
Esta conjugação de factos faz com que hoje tenha de incluir o 5º disco da banda na discoteca que é a minha vida e que começou a ganhar forma mais ou menos por essa altura.
Corriam os tempos em que as visitas de estudo eram pretexto para um convívio musical mais intenso. Não era todos os dias que os mais novos partilhavam o espaço minúsculo de um autocarro por várias horas com o pessoal mais velho, que ouvia coisas verdadeiramente estranhas.
E lá íamos nós do Algarve a Lisboa ou a Espanha, bandeira dos Guns ‘n’ Roses no vidro grande de trás da camioneta, um grupinho mais arrojado com o seu rádio ao ombro, alguns com walkman, outros já com o discman.
Para além da bandeira de pano que pertencia a um tipo tresloucado apaixonado por Axl Rose, as viagens de estudo trazem-me à memória a febre que foi Americana naquele ano. Por aqueles dias todos cantavam em coro, como que em protesto, Why Don’t You Get a Job?
E depois havia Issues, a história comico-trágica de um tipo farto da miúda com quem estava, a velocidade estonteante de Walla Walla (faziam-se até concursos para ver quem conseguia dizer a introdução mais rápido – one and two and three and four and one and two…) e de No Brakes e as guitarras eram algo contagiante. Have You Ever tentava sonhar com um mundo melhor e aqueles gritos e guitarras foram uma certa lição. As histórias de Americana não poderiam ir mais de encontro ao que eram as preocupações próprias da idade.
Paradigmática era The Kids Aren’t Alright, a canção que escolhi para hoje. Aqui os Offspring cantavam a consciência do no future apregoado pelo punk. Sonhos desfeitos, ruas que roubam inocências. Que mais queríamos ouvir?
O cliché do tempo que passa aplica-se a mim, aos músicos, a si que lê este blog. Os Offspring mudaram, eu mudei, o mundo mudou. Ouvir Ixnay On The Hombre (1997) não é como ouvir Americana (1998) ou Conspiracy Of One (2000). E ouvir estes álbuns hoje não é o mesmo que ouvi-los na época em que foram lançados.
Lapaliçadas à parte, serve isto para dizer que olho para Americana com nostalgia. Por aqueles anos, por aqueles Offspring.
Permitam-me esta recordação, The Kids Aren’t Alright, The Offspring.
___
"Jamie had a chance, well she really did
Instead she dropped out and had a couple of kids
Mark still lives at home cause he‘s got no job
He just plays guitar and smokes a lot of pot
Jay committed suicide
Brandon OD‘d and died"
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Clã - Competência Para Amar (2004)
Que os Clã são nomes seguros do pop-rock nacional já sabíamos. Que a banda de Manuela Azevedo conseguiria dar à luz um disco tão peculiar como Rosa Carne (2004), dificilmente desconfiaríamos.
Devo explicar: os Clã sempre nos habituaram a boas canções e bons discos. Dançar na Corda Bamba, mais rockeira, H2Homem, com uma componente visual muito forte, Problema de Expressão e Sopro do Coração a revelar toda a sensualidade da voz de Azevedo. Mas Rosa Carne surpreende, não pela qualidade - essa já estava bem associada ao nome Clã -, mas pela coerência, maturidade e - porque não dizê-lo? - inspiração. No álbum de 2004, as canções sucedem-se com elegância feminina, espreitam para os quartos dos casais através de cortinas semi-transparentes. É o universo da mulher, em tons rosa-carne, as suas vivências, a sua sensualidade/sexualidade/erotismo, o amor também.
Numa altura em que Cintura (2007) já deu vários singles às estações de rádio, recuo àquele que foi considerado por muitos o melhor álbum dos Clã. Não que Cintura seja inferior, não o é seguramente, mas é menos uma surpresa. Tira a Teima é um bom single sem surpreender, Sexto Andar já recupera algum intimismo ao antecessor.
Competência Para Amar, tema de apresentação para Rosa Carne, é elegância em forma de canção. Estão lá as palavras de Carlos Tê, o eterno letrista, a voz arrastada de Manuela Azevedo e todo um ambiente musical envolto em fumos e transparências. E até excertos de canções de Amália. Delicioso.
Os Clã, Competência Para Amar.
___
"Essa pose cansada,
tão despida de emoção,
de quem já viu tudo
e tudo é uma imensa repetição"
Devo explicar: os Clã sempre nos habituaram a boas canções e bons discos. Dançar na Corda Bamba, mais rockeira, H2Homem, com uma componente visual muito forte, Problema de Expressão e Sopro do Coração a revelar toda a sensualidade da voz de Azevedo. Mas Rosa Carne surpreende, não pela qualidade - essa já estava bem associada ao nome Clã -, mas pela coerência, maturidade e - porque não dizê-lo? - inspiração. No álbum de 2004, as canções sucedem-se com elegância feminina, espreitam para os quartos dos casais através de cortinas semi-transparentes. É o universo da mulher, em tons rosa-carne, as suas vivências, a sua sensualidade/sexualidade/erotismo, o amor também.
Numa altura em que Cintura (2007) já deu vários singles às estações de rádio, recuo àquele que foi considerado por muitos o melhor álbum dos Clã. Não que Cintura seja inferior, não o é seguramente, mas é menos uma surpresa. Tira a Teima é um bom single sem surpreender, Sexto Andar já recupera algum intimismo ao antecessor.
Competência Para Amar, tema de apresentação para Rosa Carne, é elegância em forma de canção. Estão lá as palavras de Carlos Tê, o eterno letrista, a voz arrastada de Manuela Azevedo e todo um ambiente musical envolto em fumos e transparências. E até excertos de canções de Amália. Delicioso.
Os Clã, Competência Para Amar.
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"Essa pose cansada,
tão despida de emoção,
de quem já viu tudo
e tudo é uma imensa repetição"
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